Sobre a crítica e o mercado*

CAUÊ ALVES


Javier León - 10 000 cabezas de fósforos hacen un Gego - 2006

 

O valor cultural e econômico da arte é estabelecido, como se sabe, por uma espécie de consenso que inclui galerias, colecionadores, mídia, recepção do público, curadores, crítica, editores e instituições diversas como museus, centros culturais e universidades. Se o mercado atribui principalmente, mas não apenas, o valor monetário dos objetos de arte, não deveria ser ele o principal definidor de seu valor cultural, ligado ao conhecimento, ao gosto, à continuidade ou ruptura com a tradição, bem como outros valores –sociais, políticos ou morais. 

Nesse sistema, o principal papel da crítica de arte é se posicionar, colocar suas idéias, apostas e mesmo as dúvidas, sabendo resistir a interesses vários. Uma de suas funções é rever continuamente a hierarquia dada por aquele consenso e contribuir para uma história da arte com escolhas que nem sempre coincidem com as do mercado. Há artistas a que se atribui um valor imenso e que nem por isso são tão melhores do que outros. O Brasil, apesar de avanços na última década, ainda carece de coleções públicas de peso, de políticas de aquisições contínuas e de um espaço efetivo para a crítica. Enfim, de um sistema de arte mais sólido. Feiras como a SP Arte são bem-vindas e podem ser vistas como um sintoma da organização cada vez maior do mercado, o que ainda não ocorreu no restante do circuito. A organização dos artistas ou mesmo de outras partes da cadeia produtiva das artes ainda não chega aos pés da estrutura criada pelas galerias (com, por exemplo, mostras paralelas às Bienais) ou pelas próprias feiras. Se mesmo em países com um sistema de arte melhor estabelecido as feiras têm crescido, disputando lugar com as principais exposições, também por aqui setores como a crítica e as coleções dos museus precisam se fortalecer ou, do contrário, corre-se o risco de produzir valores realmente estapafúrdios. 

Não se trata de afirmar que o mercado apenas cria valores artificiais. Basta lembrar que a arte moderna e de vanguarda só conseguiu se estabelecer porque havia também uma clientela para ela, e o mercado de arte foi determinante para o seu êxito. O mesmo acontece na arte contemporânea. Mas é preciso que exista uma espécie de equilíbrio de forças. O mercado é essencial para a profissionalização do meio e para a consolidação de um espaço de trocas e de discussão, mas não deveria, por mais ingênua que pareça essa afirmação, se sobrepor à instituição e à crítica. 

Apesar da presença da crítica de arte ser insatisfatória nos grandes jornais diários, ela vem se desdobrando em outros meios, como algumas revistas especializadas, sites e iniciativas mais independentes. Particularmente em São Paulo, instituições como o Centro Universitário Maria Antonia, Paço das Artes e Centro Cultural São Paulo abriram nos últimos tempos espaço para uma nova geração de teóricos (da qual faço parte) elaborar textos críticos para catálogos e folhetos. Inteiramente dedicados à apresentação e discussão de trabalhos dos artistas, esses textos tendem a escapar da simples emissão de juízos sobre as exposições ou sobre o sistema da arte em geral. Pelo fato de serem solicitados pelas instituições, ou seja, nascerem na maioria das vezes de uma adesão prévia ao trabalho, aproximam-se do papel de uma testemunha. Mas em vez de limitar o campo de atuação da crítica, a cumplicidade que se estabelece nesses casos é valiosa e relevante, o texto é, por assim dizer, a formalização da troca de idéias entre o artista e o teórico. A partir de uma relação mais colaborativa esse tipo de texto nos faz rever o distanciamento rigoroso em relação ao objeto que a crítica de arte tradicional pressupõe. Em vez de chegar à obra com uma verdade já pronta sobre ela, a crítica pode apreender e pensar com a arte, interrogando o mundo e a si mesma. O desafio é escrever de dentro da obra e ao mesmo tempo conseguir manter certa distância. O essencial é priorizar o confronto de idéias sem desconsiderar a pluralidade da arte atual, repensar a própria escrita e onde ela se insere. 

Por outro lado, espera-se que esses textos ajudem na compreensão das transformações da arte para um público não completamente familiarizado com ela. Para isso é importante situar minimamente o trabalho de arte, se não na história, ao menos em uma série de trabalhos –do mesmo artista ou de outros– de maneira a expandir seu sentido. Assim, os preconceitos e os estereótipos que o chamado grande público costuma ter podem aos poucos ir se dissipando. A própria curadoria, como desdobramento da pesquisa e da crítica, de um modo geral tem cumprido esse papel e explorado novos sentidos. Entretanto, numa exposição individual ou coletiva, em geral há pouco espaço para contradições e conflitos, e quando eles surgem dificilmente chegam a ser formulados. 

Toda crítica pressupõe a diversidade e o conflito. Faz parte de seus atributos, além de chamar atenção para bons artistas, consolidar o espaço da diferença. Não basta ao crítico emitir uma opinião, é preciso justificá-la, dizer o que faz tal trabalho ser bom ou não e por que, e, na medida do possível, esclarecer seus critérios. Ao crítico cabe também saber compreender e relacionar o trabalho no contexto da produção atual. Afinal, a arte contemporânea possui particularidades que exigem certo conhecimento de seu desenvolvimento. Na verdade, há pouco ou nenhum sentido na crítica que não possui embasamento histórico e teórico. Apesar disso, a experiência direta com o trabalho de arte jamais pode ser desprezada ou eclipsada pela teoria. E como a crítica é por excelência o campo da reflexão, do voltar-se sobre si mesmo, além da história da arte é fundamental que conheça a sua própria história, os grandes textos já produzidos por esses malditos amantes da arte que têm a ingrata tarefa de, ao calor da hora, se manifestar –e depois esperar que a própria história eventualmente os desminta e os relegue. 

Se a crítica não está tão organizada como o mercado, e existe ainda carência por textos reflexivos que acompanhem a arte contemporânea, há também uma expectativa de que as exposições sempre abram com o aval de um texto que as justifique e defenda de modo elogioso e de que recebam, ao mesmo tempo, a atenção da imprensa. Mesmo assim, muitas exposições são inauguradas e encerradas sem que ninguém escreva uma linha sobre elas.  

Hoje em dia tanto faz se um trabalho foi exposto num espaço comercial, institucional, ou na rua, afinal não há lugar imune ao mercado. A arte não pode ignorar essa realidade, mesmo porque não é apenas os seus locais de circulação que aumentam ou diminuem sua autonomia e seu eventual tom contestador. As ambigüidades e indeterminações do objeto de arte fazem com que ele, no interior do sistema, possa ser transformador. Sendo auto-reflexiva, a crítica também, por seu turno, terá mais eficácia se exercida neste interstício e talvez só assim consiga repensar com conseqüência as próprias demandas de todas as instâncias envolvidas no universo da arte, sem servir a falsas polêmicas ou dar atenção desmedida a pequenos fatos que apenas alimentam o funcionamento do sistema.



* Texto originalmente publicado na revista SP Arte, Feira Internacional de arte de São Paulo, editada por João Badeira, em abril de 2007.

[1] Cauê Alves, cuya formación en Filosofía por la FFLCH-USP le llevó a alcanzar su maestría, desarrolla actualmente una investigación doctoral en la misma. Se desempeña como profesor de Historia del Arte del curso de Arquitectura y urbanismo de la Escola da Cidade y es docente da Facultad de Comunicación de FAAP. Es miembro del Consejo Editorial de la Revista Número y curador del Club da Grabado del Museo de Arte Moderno de São Paulo.